Super El Niño pode reduzir produção de soja em 10%, estima Serasa

O Brasil pode perder mais do que um “Mato Grosso do Sul de soja” na safra 2026/27 devido aos efeitos do Super El Niño. A estimativa é da Serasa Experian, que calcula que um episódio forte do fenômeno pode reduzir a colheita em 17,6 milhões de toneladas em todo o país. 

No ciclo 2025/26, o estado do Centro-Oeste produziu 15,8 milhões de toneladas de soja, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). 

Sem a influência de eventos climáticos (El Niño e La Niña), a produção nacional estimada para esta safra é de 181,2 milhões de toneladas. Com El Niño forte, ela pode cair para 163,6 milhões, uma redução de 10%.

A Serasa explica que o número não é uma previsão de safra, mas uma simulação de cenários. O estudo combinou modelos climáticos, 20 anos de mapeamento por satélite de áreas agrícolas e dados de produtividade da Conab.

Ele aplica os padrões de produtividade de duas safras à área atual: a comparação é entre a safra 2023/24, a do último El Niño forte, e a de 2024/25, de clima neutro (sem eventos). A área plantada é a mesma nos dois cenários: 49,9 milhões de hectares. A perda, portanto, viria da redução do rendimento por hectare. 

A preços de outubro deste ano, essa diferença de produção entre os dois cenários representaria um impacto de cerca de R$ 33 bilhões no valor bruto da produção (VBP). A Serasa diz que o cálculo não indica prejuízo efetivo dessa ordem. A conta usa preço constante e não considera seguro, travas de preço ou o cenário externo. A ideia é dar “uma ordem de grandeza” do capital em risco.

Em direções opostas

O impacto do fenômeno climático não é uniforme pelo país. “O El Niño não significa só menos chuva no Brasil. Os efeitos são diversos e dependem da distribuição e da intensidade do evento”, afirmou Daniel de Oliveira, gerente de geoprocessamento agro da Serasa Experian, em coletiva de imprensa.

No Rio Grande do Sul, o cenário de El Niño melhora a safra, porque a região Sul tende a receber mais chuva. A maior disponibilidade de água reduz o risco de estiagem nas fases críticas da lavoura, como a floração e o enchimento dos grãos, problema que derrubou a produção no estado em safras recentes. 

A produtividade estimada da soja gaúcha passaria de 2,3 toneladas por hectare, em um cenário neutro, para 3,1 toneladas, com El Niño forte. 

O benefício, porém, depende de como a chuva se distribui. “Volumes excessivos também podem atrasar a semeadura e aumentar a incidência de doenças”, disse Sabrina Muñoz, gerente de inteligência de dados agro da Serasa Experian. 

No Rio Grande do Sul, a produção pode subir, nos cálculos da Serasa, de 16,7 milhões para 22,3 milhões de toneladas, um ganho de 5,6 milhões de toneladas que compensa parte das perdas do Centro-Oeste no resultado nacional.

Em Mato Grosso, o impacto seria negativo. A produtividade cairia de 4 toneladas por hectare para 3,2 toneladas, e a produção, de 51,2 milhões para 41,5 milhões de toneladas, na estimativa da Serasa.

“Observamos que em Mato Grosso, por exemplo, a maior irregularidade das chuvas e o risco de veranicos podem comprometer o estabelecimento das lavouras, atrasar o plantio e, em situações mais severas, gerar falhas de emergência [germinação] e necessidade de replantio, reduzindo o potencial produtivo”, afirmou Muñoz.

No estado, cerca de 70% da área da safra 2026/27 já foi semeada, segundo a Serasa. A atenção agora se volta para o período entre novembro a janeiro, quando a soja precisa de chuva regular para florescer e encher os grãos.

Goiás segue a mesma tendência. No cenário de El Niño forte, o estado deixaria de colher 4 milhões de toneladas, o equivalente a cerca de um quinto dos 20,1 milhões de toneladas produzidos em 2025/26, segundo a Conab. Somadas às perdas de Mato Grosso, seriam 13,7 milhões de toneladas a menos. 

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