Digitalização das propriedades rurais cria espaço para empresas de software, automação e IA. Falta de gestão, mão de obra e dificuldade de acesso a ferramentas ainda limitam o avanço do setor.
A inteligência artificial está ampliando as possibilidades de aplicação da tecnologia no agronegócio, desde o monitoramento da produção até o controle financeiro das propriedades rurais. O avanço, porém, depende de um mercado capaz de desenvolver soluções adequadas à realidade do campo e de produtores preparados para incorporar essas ferramentas à rotina. Essa foi uma das principais discussões de um webinar promovido pela Associação Brasileira das Empresas de Software (ABES), que reuniu representantes da Taggen, da Embrapa Pecuária Sudeste e do setor rural.
O debate mostrou que existe espaço para ampliar a presença das empresas de tecnologia no agronegócio, especialmente em áreas como inteligência artificial, internet das coisas (IoT), automação, análise de dados e sistemas de gestão. Ao mesmo tempo, os participantes apontaram que a digitalização não avança apenas com a oferta de novas ferramentas. É necessário entender os problemas enfrentados pelos produtores e desenvolver soluções simples, acessíveis e que tragam resultados concretos para a atividade.
Gabriela Tonial, gestora administrativa e financeira de propriedades rurais e integrante da Comissão Estadual das Mulheres da Farsul, destacou que muitos produtores ainda têm dificuldades para acompanhar custos, endividamento, indicadores financeiros e rentabilidade. Em um cenário de margens apertadas e escassez de mão de obra, a falta dessas informações compromete a capacidade de planejamento e tomada de decisões.
Nesse contexto, a inteligência artificial pode ajudar a simplificar tarefas e facilitar o acesso aos dados. Uma das possibilidades mencionadas por Gabriela é integrar ferramentas de IA a aplicativos de mensagens, como o WhatsApp, permitindo que produtores registrem informações da propriedade de maneira mais simples, sem precisar operar sistemas complexos. A tecnologia pode facilitar a organização dos dados e apoiar o acompanhamento da atividade rural.
A oportunidade para o mercado de software está justamente em transformar essas necessidades em produtos que possam ser utilizados no dia a dia das fazendas. Em vez de desenvolver plataformas complexas, as empresas precisam considerar a rotina dos produtores, a disponibilidade de mão de obra e o nível de familiaridade com ferramentas digitais. A adoção tende a ser maior quando a tecnologia resolve problemas específicos e demonstra retorno para o negócio.
Um exemplo apresentado durante o webinar foi o sistema de monitoramento de bovinos desenvolvido pela Taggen em parceria com a Embrapa Pecuária Sudeste, em São Carlos (SP). Werther Padilha explicou que a solução utiliza dispositivos transmissores instalados em coleiras e equipamentos de comunicação para acompanhar os deslocamentos dos animais em tempo real.
O sistema registra a movimentação dos bovinos e o tempo de permanência em pastagens, áreas de engorda e locais de alimentação. Os dados podem ser consultados por computador, tablet ou celular. A tecnologia também pode ser aplicada ao monitoramento de máquinas e implementos agrícolas.
A rastreabilidade é outra frente de expansão para essas soluções. O acompanhamento individual dos animais, desde o nascimento até o abate, ganha importância diante das exigências de mercados internacionais e das regras relacionadas à origem dos produtos agropecuários. Durante o encontro, Padilha também abordou o Programa Nacional de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos (PNIB), que prevê a implantação gradual de mecanismos de identificação e controle dos rebanhos, com exigência de identificação individual para movimentação a partir de 1º de janeiro de 2033, conforme o cronograma apresentado.
A aproximação entre o mercado de tecnologia e o agronegócio também foi abordada por Marcelo Almeida, que apresentou propostas de cooperação da ABES com a Embrapa. Uma das iniciativas envolve o projeto Semear Digital, que prevê pelo menos cinco fazendas digitais distribuídas por diferentes biomas brasileiros. Esses espaços devem funcionar como ambientes de experimentação para tecnologias como inteligência artificial, internet das coisas, sensores e softwares aplicados à produção rural.
Outra frente prevê a modernização da governança, dos sistemas internos e da gestão de dados da Embrapa. A proposta busca ampliar o uso de ferramentas digitais e aproximar empresas desenvolvedoras das demandas de instituições e produtores do setor.
Os participantes defenderam ainda a realização de projetos-piloto em propriedades rurais para testar soluções e avaliar seus resultados antes de uma adoção em maior escala. A estratégia permite que empresas de software conheçam melhor as necessidades do campo e ajustem seus produtos às condições reais de operação.
O debate também apontou que a transformação digital do agronegócio depende de capacitação e de maior aproximação entre educação e mercado de trabalho. A falta de profissionais e a dificuldade de incorporar novas ferramentas ainda são obstáculos para muitas propriedades.
Para o mercado de tecnologia, o agronegócio representa uma oportunidade que vai além da venda de equipamentos e sistemas. A demanda envolve inteligência artificial, integração de dados, automação e gestão. O desafio das empresas será desenvolver soluções que atendam às necessidades do produtor e consigam demonstrar ganhos efetivos de produtividade, controle e rentabilidade.



