Crise política no Paraguai: impeachment de Peña


O Paraguai vive a maior crise política em anos, e o motivo é um banco. Nesta sexta-feira (6), o Senado paraguaio retoma o julgamento de impeachment do presidente Santiago Peña, acusado de ter sido conivente com a quebra do Ueno, um banco digital com cerca de 3 milhões de clientes. Peña chegou a anunciar a renúncia na quinta-feira (5), mas o Congresso não aceitou o pedido e decidiu seguir com o processo. Para Mato Grosso do Sul, que divide uma longa fronteira com o país, a turbulência do vizinho não fica do outro lado da linha.

Como a crise começou

O Banco Central do Paraguai fechou o Ueno na terça-feira (3), depois de identificar que o banco não tinha dinheiro suficiente para cobrir o que devia, por causa de empréstimos a empresas ligadas a ele próprio. Milhares de clientes ficaram sem acesso ao dinheiro, e o banco guardava cerca de US$ 850 milhões em depósitos públicos, incluindo recursos da previdência. Peña foi acionista do grupo dono do banco até o ano passado. O presidente do Banco Central renunciou, executivos do Ueno se entregaram à polícia e a Justiça bloqueou bens de 27 acusados.

A crise atinge um parceiro comercial importante de MS. De janeiro a setembro, o Estado comprou US$ 127 milhões do Paraguai, o dobro do que vendeu para lá, US$ 57,5 milhões, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio levantados pelo A Crítica. Mais de um terço das compras é de álcool etílico. Do lado das vendas, vão óleos vegetais, ração animal, geladeiras e freezers. Esses números não incluem o comércio do dia a dia da fronteira, como as compras em Pedro Juan Caballero.

O Paraguai também é peça central da Rota Bioceânica, o corredor rodoviário que vai ligar MS aos portos do Chile atravessando o Chaco paraguaio a partir de Porto Murtinho. Qualquer mudança no comando do país vizinho passa a ser acompanhada de perto por quem aposta no projeto.

Brasileiros com dinheiro preso

O efeito mais imediato é no bolso de brasileiros que vivem ou estudam no Paraguai. Em Assunção, estudantes e pequenos empreendedores relatam contas congeladas e dificuldade para pagar aluguel e contas, porque o Ueno era procurado pela facilidade de abrir conta pelo celular. Peña promulgou uma lei para acelerar a devolução do dinheiro aos clientes.

Se o Senado condenar Peña, o que exige dois terços dos votos, ele perde o cargo, e quem assume é o vice, Pedro Alliana, que escapou de um pedido de impeachment na Câmara. Peña pediu mais 72 horas para preparar a defesa. O mandato dele iria até 2028.

Internacional | ParaguaiA crise no Paraguai e o que ela toca em MS

Linha do tempo

Terça (3)Banco Central fecha o Ueno; presidente do BC renuncia

Quarta (4)Fitch classifica o Ueno em calote; oposição pede impeachment

Quinta (5)Peña anuncia renúncia; Câmara aprova processo contra ele e rejeita o do vice

Sexta (6)Senado retoma julgamento; Peña pede mais 72 horas

MS e o Paraguai, jan. a set. de 2026

MS comprouUS$ 127 milhões35% em álcool etílico.

MS vendeuUS$ 57,5 milhõesÓleos vegetais, ração e eletrodomésticos.

SaldoUS$ 69,5 milhõesNegativo para MS.

+ O que está em jogo para MS

Comércio: importações e exportações com um parceiro em crise.

Rota Bioceânica: o trecho que cruza o Chaco paraguaio depende do governo vizinho.

Brasileiros no Paraguai: estudantes e trabalhadores com conta no Ueno estão com dinheiro preso.

+ Entenda os termos

Julgamento político: nome do impeachment no Paraguai; a condenação exige dois terços dos senadores.

Liquidação: quando o Banco Central fecha um banco que não tem como pagar o que deve.

Fontes: Congresso e Banco Central do Paraguai, imprensa paraguaia e brasileira, e Comex Stat/MDIC (comércio de MS com o Paraguai, janeiro a setembro de 2026, em dólares). Valores do comércio não incluem compras informais na fronteira. A situação política muda rapidamente.



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