O volume financeiro envolvido em recompras está entre os maiores dos últimos 20 anos – seja em termos nominais, seja em termos reais, que colocam a inflação na conta. O potencial para 2026 é de que o total em recompras possa chegar a R$ 76 bilhões.
Para entender o que tudo isso significa, vamos primeiro para o conceito. Quando uma empresa lança ações na bolsa, vende pedaços delas (as ações). Recebe dinheiro e, em troca, se compromete a dar parte dos lucros aos acionistas por toda a eternidade – enquanto ela dure. A Prio, por exemplo, é uma empresa dividida em 873 milhões de ações. Cada uma delas, então, dá direito a uma fração 0,0000000011 do que a petroleira vier a distribuir em dividendos, quando decidir fazê-lo.
Vamos supor que ela decida pagar R$ 4 anuais por ação em proventos. Se um programa de recompras dela tirar 10% das ações em circulação (cancelando-as em seguida), cada papel remanescente vai dar direito a R$ 4,44 (uma queda de 10% no número de ações significa uma alta de 11% no dividendo por ação). O ponto: cada papel que fica será intrinsecamente mais valioso.
Isso não é só um exemplo abstrato. A Prio é, de fato, uma das empresas da bolsa com programa de recompras. A intenção dela é ir comprando de volta 9,9% do total. Ao fim e ao cabo, a petroleira passará a ser um bolo dividido em menos pedaços. E os acionistas que restarem – sejam os controladores, sejam os minoritários – terão fatias maiores para chamar de seus. Quanto maior for a recompra, no fim das contas, melhor para o acionista.
E a junior oil não está sozinha. Axia, Renner, Cogna e a própria B3 estão entre as companhias com grandes programas de recompra abertos.
Nota: programas de recompra não acontecem num estalar de dedos. Se uma empresa tentasse comprar 10% dos seus próprios papéis num único dia, ou num único mês, criaria uma pressão de demanda que elevaria o preço das próprias ações a níveis irreais. Formaria-se uma bolha com data para estourar. Nonsense.
Por conta disso as recompras se dão em programas, no sentido de projeto de longo prazo, que dura anos. A empresa anuncia que aprovou a recompra de, digamos, R$ 3 bilhões em ações, e vai comprando devagar e sempre no mercado.
O volume de agora, então, é fruto de programas historicamente elevados que começaram lá atrás (2023, 2024, 2025) e seguem em andamento. Nesses últimos três anos, os valores aprovados ficaram numa média de R$ 65 bilhões/ano – três vezes maior que a média da última década.
Não são exatamente os maiores da história. Mas estão bem perto (PS: o de 2022 foi turbinado por um programa monstro da Vale, de R$ 42 bilhões, só que mesmo sem ele, esse seria o ano recorde):
Seja como for, as recompras tem sido vorazes. O programa aberto da Localiza, por exemplo, prevê tirar de circulação 12,9% das ações da empresa (a preços correntes de mercado). Essa porcentagem é o que o mercado chama de buyback yield. Você pega o dinheiro que a empresa reservou para as recompras e divide pelo preço somado de todas as ações dela (o valor de mercado atual).
No caso da Localiza, dá 12,9%. É o maior percentual daquelas com programas abertos. Mas as outras não ficam muito atrás. O Itaú BBA fez um levantamento que mostra os maiores yields entre os programas vigentes. A locadora de carros vem na frente. Em segundo lugar, a construtora MRV, com 12,6%. Depois, empatados, vêm Hapvida e Prio, com 9,9% cada. Axia (ex-Eletrobras) surge em seguida, 9,3%. Veja mais aqui:
O ritmo vem forte nos últimos anos justamente porque as companhias aproveitam os momentos de preços muito baixos de seus papéis para recomprá-los. Trata-se de uma mostra de confiança da empresa no próprio taco.
As empresas também podem colher um benefício indireto: quando as condições de mercado melhorarem, e se a empresa se mantiver lucrativa e confiável aos olhos dos investidores, as recompras abrem um espaço maior para futuras captações por meio de emissões de novos papéis. É o velho “comprar barato para vender caro”, mas com a própria empresa no papel de investidor.
Mas nem sempre recompras são flores. Já houve casos em que programas assim foram lançados para estancar uma sangria de venda de papéis, por conta da desconfiança do mercado. Nesses casos, a recompra acaba tendo um efeito cosmético sobre as cotações (já que acaba impulsionando o preço para cima) e, quando ela acabar, o poço pode se relevar mais fundo.
Para evitar isso, a regra é observar os fundamentos da companhia: se ela vem dando lucros recorrentes, se a dívida é administrável (menor do que 2 vezes o lucro operacional costuma ser um indicativo de saúde).
De qualquer modo, os programas de recompras costumam, sim, ser uma forma eficaz de devolver valor aos acionistas. O próprio Warren Buffett prefere empresas que fazem recompras. E companhias de alta reputação financeira, como Apple e Chevron, estão no time das que fazem isso com frequência.
É preciso ressaltar que as companhias, muitas vezes, não executam completamente esses planos – geralmente porque a ação ficou cara demais para justificar uma recompra massiva. Portanto, não há garantia de que o retorno em termos de buyback yield seja completamente atingido.
O mais comum é executar cerca de 60%. Essa é a conclusão de um estudo do BTG com base em 89 programas recentes. Apenas um em cada dez programas encerrou em 90% ou mais. Em 2025, as execuções mais abrangentes foram estas aqui:
E o que os últimos anos tiveram de diferente, para estimular tantas recompras? Simples: o preço das ações estava historicamente baixo na comparação com o lucro que as empresas proporcionam.
Tanto que os anos de recorde em recompras são
Com a alta do Ibovespa no ano passado, de 34%, essa relação preço/lucro voltou para a média dos últimos 15 anos. Ou seja: as ações, na média, deixaram de ser “baratas”. E isso pode frear os programas de recompra bem antes dos yields planejados.
São os volumes vistos em 2022, que ocupa o primeiro lugar no pódio com R$ 134,7 bilhões em novos programas; de 2024, quando as empresas listadas lançaram recompras potenciais de R$ 78,4 bilhões; e de 2021, com R$ 67 bilhões.
Além disso, na prática, 2025 poderia ocupar o terceiro lugar no pódio. É que em 2022, o programa da Vale, de assombrosos R$ 42 bilhões em recompras, distorceu as estatísticas daquele ano. O plano representou mais de 45% do montante total do período.
Donald Trump suspendeu, nesta quarta-feira (21), a ameaça de impor novas tarifas para vários países europeus e garantiu que “concebeu o marco de um futuro acordo sobre a Groenlândia”, em uma reunião com o secretário-geral da Otan, Mark Rutte, em Davos, na Suíça.
“Com base neste entendimento, não vou impor as tarifas que deveriam entrar em vigor em 1º de fevereiro”, escreveu o presidente americano em sua plataforma, Truth Social, sem dar nenhum detalhe sobre esse “marco”.
O anúncio animou os mercados financeiros. A bolsa de Nova York, que operava em leve alta, confirmou seus ganhos após a publicação da mensagem, e o dólar ganhou terreno frente ao euro.
Trump insiste em que esta ilha rica em minerais é “vital” para a segurança dos Estados Unidos e da Otan frente à Rússia e à China, à medida que o gelo do Ártico derrete e as superpotências competem por uma vantagem estratégica nesta região.
Na semana passada, o presidente americano ameaçou impor novas tarifas de até 25% a oito países europeus por apoiarem a Dinamarca e enviarem uma missão militar de exploração à Groenlândia.
Todos são membros da Otan, entre eles Reino Unido, Alemanha e França, as principais economias do continente.
Trump disse, nesta quarta-feira, que há “discussões adicionais em curso sobre o Domo de Ouro em relação à Groenlândia”, referindo-se ao escudo antimísseis que pretende construir.
Ele encarregou seu vice-presidente, JD Vance; o chefe de sua diplomacia, Marco Rubio; e seu emissário especial Steve Witkoff a realizarem as negociações.
Horas antes desta publicação, Trump descartou pela primeira vez usar a força para tomar a Groenlândia, mas exigiu “negociações imediatas” para sua aquisição, reiterando que só os Estados Unidos podem proteger esta ilha do Ártico.
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O presidente Donald Trump tem planos de convidar a Washington Delcy Rodríguez, que assumiu a presidência de Venezuela de forma interina após a queda de Nicolás Maduro em uma incursão americana, informou a Casa Branca nesta quarta-feira (21).
Delcy era a vice-presidente de Maduro e está sancionada pelos Estados Unidos. Washington informou nesta quarta-feira que está prevista a visita de Delcy Rodríguez, embora ainda não haja uma data: “Nada foi agendado”, indicou.
A presidente interina será a primeira governante da Venezuela a viajar aos Estados Unidos há mais de 25 anos, excluindo as visitas para reuniões das Nações Unidas em Nova York.
O último foi Carlos Andrés Pérez, que fez uma visita de Estado em 1990.
O convite mostra a proximidade de Trump com o governo interino, após o bombardeio a Caracas de 3 de janeiro que levou à captura do mandatário socialista.
Trump disse no Fórum de Davos que “os líderes do país foram muito astutos”, em referência a Delcy. “A Venezuela fará mais dinheiro [com o petróleo] nos seis próximos meses do que o que fez nos 20 anos passados.”
Antes de sua participação em Davos, Trump já havia classificado Delcy de “formidável” e garantiu que “tudo está indo muito bem”. A nova presidente já firmou acordos petrolíferos e aceitou libertar presos políticos, em meio a discussões para retomar as relações diplomáticas rompidas desde 2019.
Trump mantém em paralelo uma frente aberta com a oposição. Disse nesta terça-feira que queria “envolver” a chefe da oposição venezuelana e ganhadora do Prêmio Nobel da Paz, María Corina Machado, na gestão do país.
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“Estamos em uma encruzilhada”, disse von der Leyen, a principal autoridade executiva da UE, ao discursar diante do Parlamento Europeu em Estrasburgo, nesta quarta-feira. “A Europa prefere o diálogo e soluções, mas estamos totalmente preparados para agir, se necessário, com unidade, urgência e determinação.”
De forma incisiva, von der Leyen também argumentou que não havia retorno à ordem mundial que a Europa passou décadas construindo com a cooperação dos EUA.
“A mudança na ordem internacional não é apenas sísmica, mas ela é permanente”, disse. “Agora vivemos em um mundo definido pelo poder bruto.”
“Embora muitos de nós possamos não gostar disso”, acrescentou, “temos que lidar com o mundo como ele é agora”.
O discurso de Von der Leyen indicou uma guinada para uma abordagem mais incisiva diante das ameaças persistentes de Trump à Europa. Isso ocorre à medida que a chefe da UE enfrenta pressão para reagir com mais firmeza à agressão global de Trump.
Trump deve discursar no Fórum Econômico Mundial em Davos, mais tarde nesta quarta-feira, com as capitais da UE atentas a qualquer sinal sobre se ele pretende atenuar sua promessa de impor novas tarifas à Europa.
No sábado, Trump anunciou uma tarifa de 10% sobre produtos de oito países europeus a partir de 1º de fevereiro, subindo para 25% em junho, a menos que lhe seja permitido adquirir a Groenlândia, um território semiautônomo da Dinamarca, aliada da Organização do Tratado do Atlântico Norte e membro da UE. Os líderes do bloco realizarão uma reunião de emergência em Bruxelas na quinta-feira para analisar possíveis medidas retaliatórias.
Von der Leyen afirmou que as tarifas adicionais seriam “simplesmente erradas”, visto que a UE e os EUA compartilham da mesma avaliação estratégica sobre a segurança no Ártico.
“Se estivermos agora mergulhando em uma perigosa espiral descendente entre aliados, isso apenas encorajará os próprios adversários que ambos estamos tão empenhados em manter fora do nosso cenário estratégico”, acrescentou, ecoando um discurso feito na terça-feira ao público de Davos.
O Parlamento Europeu já se prepara para adiar a votação sobre a ratificação de um amplo acordo comercial entre a UE e os EUA devido à crise sobre a Groenlândia.
Von der Leyen reiterou que o bloco também está se preparando para apoiar a Groenlândia com uma “grande onda de investimentos europeus na ilha semiautônoma para apoiar a economia e a infraestrutura local”.
Além disso, ela afirmou que a UE “reforçará os nossos arranjos de segurança” com o Reino Unido, o Canadá, a Noruega e a Islândia, e trabalhará em uma nova estratégia de segurança nos próximos meses.
“Acredito que a própria Europa precisa reavaliar sua estratégia de segurança mais ampla”, afirmou. “O mundo mudou muito rápido, e a Europa agora precisa mudar com ele.”
Um juiz federal dos Estados Unidos determinou, nesta quarta-feira (21), que funcionários do governo não podem periciar os dispositivos eletrônicos de uma jornalista do Washington Post, apreendidos pelo FBI na semana passada.
A decisão indica que os objetos não podem ser periciados devido a um litígio pendente sobre a diligência policial na casa da jornalista.
“O governo deve preservar, mas não deve periciar nenhum dos materiais que as forças da ordem apreenderam” até que a Justiça o autorize, escreveu o juiz William Porter na resolução.
Em 14 de janeiro, foram apreendidos na casa da repórter, identificada como Hannah Natanson, seu computador de trabalho, um computador portátil pessoal, um telefone móvel e um relógio.
Natanson, que cobre notícias sobre o governo federal, informou sobre os cortes de empregos em Washington após o início do segundo mandato do presidente Donald Trump.
A procuradora-geral dos Estados Unidos, Pam Bondi, disse que a diligência, ordenada pelo Departamento de Defesa, é parte de uma investigação sobre um suposto vazamento no Pentágono de informação classificada relacionada com a segurança nacional.
Agentes do FBI disseram a Natanson que ela não é o foco da investigação do governo. “Quem vazou [a informação] está atualmente preso”, disse Bondi.
Segundo documentos judiciais, Aurelio Pérez-Lugones, que trabalhava como funcionário terceirizado do Pentágono, foi preso na semana passada no estado de Maryland, embora não haja qualquer menção sobre o contato dele com jornalistas.
Pérez-Lugones foi acusado de levar para casa documentos de inteligência desde outubro de 2025.
Em comunicado, o Washington Post indica que a apreensão dos materiais confidenciais de sua jornalista “sufoca a liberdade de expressão, paralisa o trabalho dos jornalistas e causa danos irreparáveis”, para cada dia que os oficiais continuarem em posse dos equipamentos.
O jornal solicitou ao tribunal que impeça o uso dos materiais e que eles sejam devolvidos imediatamente. “Qualquer coisa menos que isso autorizaria futuras diligências em redações e normalizaria a censura mediante ordens de busca e apreensão”, acrescenta a nota.
Durante o atual governo de Donald Trump, o Departamento de Defesa impôs novas políticas restritivas para os meios de comunicação. Limitou o acesso da imprensa às instalações do Pentágono, forçou alguns veículos de comunicação a desocuparem seus escritórios no edifício e reduziu drasticamente o número de coletivas de imprensa.
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