A comercialização de fertilizantes para a safra atual entra em uma fase decisiva. Embora as compras para a soja acompanhem o ritmo do ano passado, o último terço da demanda concentra os maiores riscos de alta de preços e dificuldades de abastecimento, especialmente para fertilizantes fosfatados.
Segundo o analista de insumos do Rabobank, Bruno Fonseca, até meados de junho o volume de compras para a soja estava próximo do registrado no mesmo período do ano passado, com cerca de dois terços da demanda da safra já fechados. As atenções se voltam, segundo ele, para esse último terço, em relação ao volume comprado e ao ritmo de entrega dos insumos.
Culturas como milho, café, cana-de-açúcar e citros vivem, segundo o analista, uma situação de margem mais tranquila e, por isso, têm conseguido acessar fertilizantes sem grandes dificuldades. A soja é apontada como a cultura sob maior pressão.
Por nutriente, o cenário também é desigual. No potássio, o acesso deve seguir tranquilo, com importações em volume recorde até o final de maio.
Já no fósforo, Fonseca aponta um ponto de atenção: o preço do insumo acumula oito semanas seguidas próximo de US$ 900 por tonelada no porto, patamar que pressiona a margem dos produtores. Segundo ele, os produtores que já fecharam compras tendem a ser os mais capitalizados; o risco maior está justamente no último terço da demanda, formado por quem costuma comprar em cima da hora, grupo que pode acabar pagando mais caro ou até enfrentando dificuldade de acesso ao produto.
Sobre os efeitos do conflito geopolítico do Oriente Médio sobre o consumo, Fonseca pondera que os cenários mais alarmistas traçados no início do conflito tendem a não se confirmar. O Rabobank já revisou sua projeção de entrega de fertilizantes no Brasil de 49 milhões para 47 milhões de toneladas, e o analista sinaliza que uma nova revisão, de cerca de 2 milhões de toneladas, deve ocorrer para 2026. Ainda assim, ele descarta cenários mais extremos, como uma queda para a faixa de 40 milhões de toneladas ou um retorno aos volumes de 2019. Um recuo para cerca de 45 milhões de toneladas, próximo do patamar de 2024, é, na avaliação dele, o cenário mais provável.
Os dados de importação também mostram uma mudança na composição do mix de fosfatados: cresceu a participação de produtos como super triplo e super simples, de menor concentração de nutrientes, em relação aos anos anteriores. Ainda assim, o volume total de P2O5 importado, somando super simples, super triplo e MAP, ficou um pouco acima do registrado no mesmo período do ano passado.
O destaque negativo fica com o MAP: as importações do produto estão no menor nível para os cinco primeiros meses do ano desde 2018, segundo dados da Secex. Entre janeiro e maio deste ano, foi importado cerca de 1 milhão de toneladas de MAP, volume próximo ao de 2018, quando foram importadas 715 mil toneladas no mesmo período. Em todos os outros anos da série, o volume ficou acima de 1,075 milhão de toneladas.
Para Fonseca, esse atraso na chegada de volumes importados deve gerar um período de tensão para empresas e produtores, especialmente para quem deixa a compra de fertilizante mais para o fim do ciclo.
As janelas de acompanhamento, segundo ele, são: até meados de agosto, o foco está nas importações e nas compras para a soja; a partir de agosto, a atenção se volta para o milho safrinha, começando pelas importações de ureia e, na sequência, pela evolução das compras de nitrogenados, já que o produtor tende a concentrar essas compras somente depois de fechar o último terço da demanda de soja, o que deve ocorrer a partir de meados de agosto.
Fonseca não descarta um novo repique de preços nesse momento, quando as áreas de safrinha voltam a demandar insumo de forma simultânea, efeito que pode ser amplificado por uma eventual demanda forte da Índia em leilões de importação e pela própria duração incerta do conflito no Oriente Médio.
Já Wharlhey Nunes, do Itaú BBA, avalia em relatório que deve haver uma “decisão de reduzir adubação fosfatada deve persistir em parte dos produtores, refletindo preços altos e maior restrição financeira”.
“Com a menor disponibilidade de fósforo e preços firmes, aumenta a probabilidade de ajuste no pacote tecnológico e maior exposição ao risco produtivo”, disse o analista.
Para o milho, porém, a avaliação é mais cautelosa. A comercialização da safra segue abaixo da média em praticamente todo o país, enquanto existe uma janela limitada para a entrega dos fertilizantes antes do plantio. A situação é considerada mais preocupante no Centro-Oeste, onde o calendário de semeadura é mais antecipado e as compras estão mais atrasadas. No Sul, embora o cronograma seja mais flexível, o Itaú BBA alerta que, sem perspectiva de queda nos preços do MAP semelhante à registrada na ureia, adiar as compras até o último momento pode representar um risco.