A estratégia do governo para ampliar as exportações do agronegócio brasileiro passou a ir além das negociações sanitárias. Desde 2023, o Mapa (Ministério da Agricultura e Pecuária) vem intensificando ações de promoção comercial e de defesa agropecuária para reforçar a imagem do Brasil como fornecedor confiável e facilitar a abertura de novos mercados. O resultado é nítido: o país deve ultrapassar 700 novos destinos para os produtos brasileiros.
O avanço, inclusive, é utilizado como bandeira de campanha da reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). No plano de governo apresentado recentemente a campanha petista valorizou as aberturas e pontuou a diversificação de mercados como proteção aos produtores brasileiros. O texto ainda pontua que, em um eventual quarto mandato, o governo continuará “neste caminho”.
A avaliação da Secretaria de Comércio e Relações Internacionais é que, embora o acesso aos mercados continue sendo decidido em negociações técnicas entre autoridades sanitárias, a forma como o país apresenta seu sistema de produção também passou a influenciar essas discussões.
“O Brasil tem evoluído muito ao dizer como é que a gente produz. A gente produz diferente. A gente produz com sustentabilidade baseado numa tecnologia tropical”, afirmou o secretário de Comércio e Relações Internacionais do Mapa, Augusto Billi, em entrevista à CNN.
Segundo ele, parte do trabalho desenvolvido pelo governo consiste em explicar aos parceiros comerciais que a agricultura brasileira opera em condições distintas das encontradas em países de clima temperado, especialmente na Europa.
“Temos um ambiente diferente, que apresenta problemas diferentes e precisa de soluções diferentes. A Europa, em alguns momentos, parece não compreender que certos regulamentos não serão aplicáveis nas diferentes condições de todos os continentes. Ora, os regulamentos devem considerar as condições de cada local onde será aplicado”, disse.
Como exemplo, Billi cita o Código Florestal brasileiro, que, em sua avaliação, é bem mais rígido que as normas ambientais aplicadas lá fora. Num raciocínio semelhante, seria como o Brasil exigir que todos os países o cumprissem.
Além do trabalho institucional, o ministério ampliou a presença em eventos internacionais para divulgar produtos brasileiros. Neste ano, o Mapa participa de 28 feiras internacionais, muitas delas voltadas a nichos específicos do agronegócio.
Segundo Billi, o governo custeia a estrutura dos estandes para permitir que empresas brasileiras apresentem seus produtos diretamente aos compradores internacionais.
“Às vezes são até feiras menores, mas a gente compra o chão da feira. O Brasil paga o estande e as empresas entram na chamada. A pessoa tem que ir lá e apresentar o produto dela”, explicou.
A estratégia busca ampliar a participação de pequenas e médias empresas nas exportações e complementar o trabalho de promoção comercial realizado pela ApexBrasil (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos).
Defesa sanitária
Na avaliação do governo, fortalecer a reputação do sistema sanitário brasileiro também se tornou parte da estratégia para ampliar mercados.
Billi reconhece que um dos principais desafios hoje está relacionado às discussões sobre o uso de antimicrobianos na produção animal, especialmente após a União Europeia endurecer exigências para produtos de origem animal.
“Muitos países olham o que está aprovado na União Europeia para importar. Então existe um risco reputacional para o Brasil que a gente precisa resolver”, afirmou.
Nas próximas semanas, o país receberá auditorias de autoridades sanitárias da União Europeia e da Coreia do Sul. O Japão também concluiu recentemente uma inspeção, cujo resultado ainda é aguardado pelo governo brasileiro.
Segundo Billi, o Brasil está preparado para demonstrar a robustez do sistema de inspeção de produtos agropecuários.
Para o secretário, o país já avançou no controle do uso de antimicrobianos, inclusive com a proibição da utilização dessas substâncias como promotores de crescimento. Segundo ele, o uso terapêutico continua permitido por razões sanitárias.
“O uso de alguns antimicrobianos como promotores de crescimento, as últimas portarias da SDA (Secretaria de Defesa Agropecuária) proibiram. Mas aguardamos resposta objetiva da União Europeia. Outros países menos transparentes continuam na lista. A gente está fazendo e ficou fora”, disse.
Cultura exportadora
Além da promoção internacional, o governo também tenta estimular novos exportadores dentro do país.
Uma das iniciativas é a Caravana do AgroExportador, programa que percorre estados brasileiros orientando produtores sobre oportunidades de venda ao exterior.
“A gente vai para o interior para falar de como exportar. Tenho uma [caravana] agora no Acre voltada para mandioca e farinha de mandioca. É para gerar uma cultura exportadora. Se não, a pessoa só fica olhando para dentro e não vai para fora”, afirmou.
Segundo Billi, a diversificação de empresas exportadoras ajuda a ampliar a presença do Brasil no comércio internacional e permite que pequenos produtores também tenham acesso ao mercado externo.
“Quando a gente vê pequenos produtores exportando através de suas cooperativas, isso mostra que essa estratégia está funcionando”, disse.